sexta-feira, 2 de março de 2012

Mandar e Obedecer


Enquanto encarnados, é natural que a condição de mandantes, muitas vezes, nos seja imposta por circunstâncias alheias à nossa própria vontade: um cargo de chefia na empresa em que trabalhamos, a necessidade de comandar os empregados, se somos empregadores, a liderança no ambiente familiar, na condução dos filhos e até os cargos de diretoria exercidos em entidades filantrópicas, culturais, religiosas… Enfim, tudo isto exige de nós uma postura de comando, que costuma trazer, também, alguns privilégios. O risco está na possibilidade de nos apegarmos a esses privilégios, exigindo sempre que as nossas ordens sejam fielmente cumpridas, mesmo que sirvam apenas para satisfazerem os nossos caprichos pessoais.
Quando, com o passar dos anos, atingimos o ápice do poder, mesmo que seja apenas no ambiente doméstico, e nos viciamos a mandar e a ser obedecidos, é comum que não aceitemos mais objeções, questionamentos e muito menos negativas advindas dos nossos subordinados. Tornamo-nos intolerantes e, pior ainda, imperceptivelmente, vamos ampliando o nosso raio de ação. À medida que envelhecemos, passamos a nos considerar cada vez mais aptos para ditar ordens e regras a um número cada vez maior de pessoas.
É nesta via de contramão que seguimos pela irreversível estrada da destituição material. Agimos de modo antagônico, pois justamente quando deveríamos nos desapegar do privilégio de sermos servidos e atendidos em nossas egoísticas vontades, é que tornamos mais latente em nós este vício ancestral, que nos tem criado enormes prejuízos na esfera espiritual.
A decepção surge no exato instante em que, restituídos à nossa verdadeira origem (ou seja a Espiritual), nos vemos destituídos de todo e qualquer poder material, sem o privilégio auferido na subjugação do subordinado. Ali, em vez de mandarmos, teremos que nos submeter à força das leis universais que nos regem. Teremos que obedecer aos Espíritos moralmente mais evoluídos do que nós e isto pode se tornar um grande martírio para o nosso amor-próprio, pois nos desacostumamos de fazê-lo. Tal fato pode nos impulsionar para uma zona perigosamente conflitante dentro de nós mesmos. O vício do poder é tão nocivo ao Espírito, quanto qualquer outro tipo de apego material. Mantém-nos acorrentados às ilusões terrenas e é motivo de muito padecimento na esfera espiritual.
Imaginem a revolta que a necessidade da subordinação provocará em nós, se não estivermos preparados para encarar a crua realidade de que ali (no mundo espiritual) não são as nossas vontades que prevalecem. Pior ainda, imaginem que a pessoa que venha nos esclarecer sobre isto seja um dos nossos ex-subordinados na Terra. Alguém a quem nunca demos grande valor, por considerá-lo desimportante. Afinal, na dimensão espiritual, segundo O Livro dos Espíritos, existe hierarquia sim, só que ela não se baseia na ascendência material ou intelectual, mas na ascendência moral.
Quantos de nossos subordinados serão mais elevados moralmente do que nós? Nosso orgulho nos permitirá acatar as orientações advindas de uma pessoa a quem sempre julgamos inferior? Estaremos preparados para viver num ambiente onde não poderemos dar ordens, ditar regras e exigir obediências? Acataremos, sem padecimentos, esta nova realidade? Tais questionamentos são muito importantes e podem ser fonte libertadora no momento crítico de nossa passagem. Convém avaliá-los e, por que não?, reconsiderarmos certas atitudes nossas, enquanto ainda é tempo!
“Quem quer ser o maior, que seja o maior servidor”.